sábado, 7 de maio de 2022

Um breve reflexão sobre eutanásia e religião

 Um breve reflexão sobre eutanásia e religião

 

 

A vida que temos é resultado de escolhas, escolhas que dependendo do ponto de vista podem parecer certas ou erradas. Mas não só de escolha é feita a vida, ela é feita também dos acasos, de planos que não dão certo, das coisas que não funcionam exatamente como gostaríamos, de visitas inesperadas, de tempos imprevistamente nublados e chuvosos, de conduções que perdemos e, é claro, de perdas. A vida não pode ser controlada, a vida nunca está completamente no nosso controle, pois existem tantas variáveis que não são da nossa alçada, que não tem como as coisas serem exatamente como planejada por nós e, se fosse, nos gostaríamos mais da vida ou menos?

Ontem minhas conversas foram sobre escolhas, sobre as escolhas que podemos fazer enquanto estamos saudáveis, sãs ou em controle de nossas faculdades mentais. E isso me fez pensar no controle severo de algumas religiões sobre nossos corpos e sobre o que podemos fazer com eles e, de tabela, sobre as nossas próprias mortes. A igreja sempre desprezou o aborto e o suicídio, pois “não matarás” é considerado um dos dez mandamentos que não podem de maneira alguma ser infringidos. No entanto, se pararmos para pensar, de fato existem muitos outros mandamentos que são “socialmente” aceitos quando não respeitados na nossa sociedade, como: “não olharás para a mulher do próximo” e “não adulterarás. O que faz pensar na relatividade com que as pessoas escolhem o que seguir e no que acreditar de acordo com as suas próprias necessidades, pois existe uma flexibilização dos mandamentos dependendo do devoto. Mas se existe toda essa flexibilização de alguns dos mandamentos, por que a quebra de alguns desses é moralmente mais aceita do que outros?

Para mim essa explicação se dá por interesses dentro da sociedade e pela próprio pensamento machista da religião que acaba fortalecendo e imbuindo a nossa sociedade com mais pensamento machista. Já que na sociedade o que é moralmente aceito é a traição do homem e, não o da mulher, pois a própria bíblia coloca a mulher sempre num papel de inferioridade ao homem e num papel de subserviente, dependente e imbuída de características negativas do ponto de vista cristão, como sendo lasciva, como responsável por várias atitudes pecaminosas tomadas pelo homem, como se fosse uma influência ruim e nascida com algum tipo de perfídia própria do sexo feminino.

Exatamente por esse contexto machista que a sociedade aceita as traições dos homens como algo normal, mas considera pecaminoso alguém sequer pensar em tirar a própria vida, pois o suicídio, que seria o assassinato de si mesmo, é altamente condenado não só pelo catolicismo e pelo protestantismo, mas em religiões como o espiritismo. A questão é que a proibição do suicídio está diretamente ligado com o cerceamento do livre arbítrio do indivíduo e do direito sobre o seu corpo e de fazer o que quiser sobre o seu próprio corpo. Não deixa de ser um controle moral sobre o que podemos fazer com nosso corpo, sobre nossas escolhas e sobre como decidimos viver e morrer.

A lógica das religiões nem sempre se padece do sofrimento humano e, muitas vezes, pelo contrário, de várias formas incita o autoflagelamento e o sofrimento como forma de expiação dos pecados, como forma de redenção. Sendo assim, dentro desse contexto é que deve-se entender como a religião não se padece de seres humanos que buscam uma morte pacífica e sem sofrimento, ou uma morte digna e que se dê enquanto ainda existe consciência de si ou, ainda, alguma forma de entendimento da realidade para que se possa decidir como se quer partir.

Todas essas religiões são de uma crueldade atroz quando se imiscuem no Estado e transformam o que deveria ser uma decisão pessoal e feita somente pelo indivíduo em algo que o Estado deve ou não permitir, sancionado pelo o que a religião considera moralmente correto. Enquanto isso, pessoas definham em camas e agonizam de dor ou veem suas consciências se esvaindo pouco a pouco sem que possam dar um fim antes de deixarem de ser elas mesmas.

É preciso que a sociedade chegue a um entendimento de que não existe uma única religião e nem homogeneidade de crenças, então, deve-se entender que existem outras visões que não são as mesmas compartilhadas por pessoas de uma determinada religião. Por isso, mesmo que se considere um pecado mortal certa ação do indivíduo, isso não deve virar uma política de estado e nem deve influenciar nas decisões tomadas dentro de um Estado Democrático de Direito. As pessoas devem poder escolher como vivem e como morrem, sem imposições da religião de um determinado grupo. Quando negamos o direito ao outro sobre quando tirar sua vida, estamos indo contra a dignidade humana, pois assim como a Constituição deve assegurar uma vida digna, ela também deve no fim da vida de todos, assegurar a dignidade em seus momentos finais. Um verdadeiro Estado Democrático de Direito entende que decisões individuais que não prejudicam terceiros devem ser respeitados, à revelia do que pensam alguns grupos ou pessoas.

domingo, 30 de janeiro de 2022

A mulher Elza

 

Muitas pessoas quando falam da morte da Elza Soares, falam, inevitavelmente, do Garrincha, tanto, acredito, por ser este um ídolo brasileiro do futebol, mas também como aquela atitude típica de nossa sociedade: a de sempre ver as mulheres em relação a seus parceiros, quase como se fóssemos meros apêndices dos homens.

Em 2021, eu fiz um curso dado pela Pinacotece de São Paulo sobre as mulheres no acervo da Pinacotece e me impressionou em como várias artistas com obras imensamente interessantes só eram conhecidas por ser mulheres ou amantes de determinados pintores. É como se toda a sua trajetória, seus feitos, personalidades fossem colocados em relação ao pintor, como se não existisse uma vida e personalidade independente , elas eram meros apêndices de pintores famosos brasileiros.

Já em 2022, quando da morte da Elza Soares, a história dessas mulheres me veio à mente. Pensei em como tantas e tantas mulheres foram relegadas pela história da arte e pela história brasileira oficial para dar lugar à exaltação de homens; e como esse discurso se perpetua até hoje.

No youtube, ouvi no canal do Paulo Rezzuti um vídeo sobre a imperatriz Teresa Cristina. Nele, o escritor mostra como foi contruída uma imagem histórica de uma mulher apagada, sem nenhum protagonismo. É quase como se Teresa Cristina aparecesse na história, unicamente, por ser mulher de  D.Pedro II. Todas as suas características pessoais ficaram apagadas para a construção de uma figura pública que não poderia ofuscar o imperador.

Em pleno século XXI, os mesmo discursos retrógrados continuam sendo propagados e mulheres continuam sendo colocadas à margem a favor de algum homem. Não há interesse em contar suas histórias e em vê-las sob outros viés, que não o de mães e esposas. Esse reducionismo, aparentemente bobo, que é recorrente em todos os períodos da sociedade ocidental, acaba construindo uma "imagem" da mulher na história, sempre em contraponto ao homem.

Ao falar de Elza como "a mulher do Garrincha" em seu obituário, diminuimos, minimizamos a cantora que foi, sua importância para a música brasileira, para o feminismo, para a luta negra e LGBT. Dessa forma, apagamos todo o seu percurso para encaixá-la no papel da "esposa de alguém importante". Essa associação ao nome do Garrincha tem um peso ainda maior quando lembramos que o motivo da separação do casal, foi porque ele batia nela.

Não, não consigo aceitar que Elza, com todo o peso que seu nome carrega, seja lembrada em associação com quem, em vida, ela fez questão de se afastar. Com quem em um acidente de carro, estando alcoolizado, foi responsável pela morte de sua mãe.

Em que sociedade, minimamente sadia, faríamos uma homenagem a um ser humano ímpar, enaltecendo justamente o  casamento que teve com um homem abusivo e responsável pela morte de sua própria mãe? Em uma sociedade sã, só mencionaríamos Garrincha para falar do horror, da opressão que mulheres como Elza viveram e vivem dentro dos próprios lares com seus parceiros. Usaríamos Garrincha apenas como exemplo dos execráveis casos de violência doméstica que terminaram em impunidade para o homem; e em como esses ainda são brindados com uma imagem benevolente na história brasileira.

É um horror termos que todo dia dizer o óbvio, mas quando a realidade se encontra cada vez mais distorcida e os valores éticos e morais cada vez mais deturpados, é necessário que expliquemos a verdade retumbante, é preciso que enfatizemos o óbvio, para que não se use das desculpas mais esdrúxulas para realizar a defesa do que não deveria de maneira alguma ser defendido. Violência doméstica é crime e sentimentos de posse e de coisificação da mulher não devem e não podem nunca ser confundidos com amor. O amor é generoso, carinhoso, compreensivo. O amor diz respeito à partilha, a dar a liberdade do outro de ser quem ele é. Todos somos ou deveríamos ser livres, de qualquer amarra emocional ou física. O amor não se confunde com violência e a violência não se justifica, se combate.

Editado em: 23/07/2023

sábado, 29 de janeiro de 2022

Pulso de vida e de morte

Caminhamos na corda bamba entre a vida e a morte 
Nos equilibramos diante do pulso de vida e de morte 
E qualquer desiquilíbrio na linha da vida 
Pode significar uma perda irreversível 
De nosso bem mais valioso, ora ser insubstituível 

Como neófitos caminhamos como se fôssemos imortais, 
Mas nos sabemos mortais 
No entanto, às vezes é preciso enganar a realidade, 
Escapar dos fatos para viver entre sonhos 

Nos sabemos poeira do cosmo 
No entanto, nos enganamos achando que somos estrelas 
Astros quase eternos, de tempos passados 
Sombras de entidades já desfeitas no universo
 
Sonhamos e acreditamos e nos enganamos 
É preciso, para a todo instante encontrar beleza no que nos resta 
Na flor de Maio e de Outubro 
Na breve joaninha se alimentando do parasita em uma flor 
No céu de verão laranja infinito 
No mar de ressaca de tempestade 
No mármore esculpido em carne 
Na beleza que se constrói e que foi construída 
No piscar de um raro vagalume à noite 

Sim, nos alimentamos dessas pequenas esperanças, 
Dessas pequenas sutilezas, visões, cheiros, cantos, 
O que nos faz despertar todo dia para um novo amanhã, 
Incerto, certo, uma constante dúvida, 
Carregada de expectativa, temores, 
Aguardada, desprezada, irrequieta 
Vida

O que aprendi tendo minha própria horta orgânica?

O que aprendi tendo minha própria horta orgânica? 

    Aprendi que primeiro é bem mais difícil de se ter qualquer tipo de planta em um ambiente controlado, pois apesar da mãe natureza ser sábia, ela é também uma cretina e aquele sua plantinha que fica super bem dentro de casa, se vc for plantar ela na terra, é bem provável que ela seja atacada por inúmeras pragas. Aqui o meu maior problema são as formigas, apesar do benefício de serem grandes decompositores e afofarem a terra, eles conseguem destruir uma parreira inteira em um único dia.             Aprendi que dá para ser auto-sustentável no manejo com suas plantas, mas que dá trabalho. Você pode compostar e existe uma variedade grande de compostagens que você pode fazer, com uma série de produtos que podem ser pegos de graça, como folhas secas, gramas secas, etc... Você pode utilizar como adubo o esterco dos mais variados animais: coelhos, galinhas, bois, codornas, etc...ou você pode usar a mamona para fazer torta de mamona, ou calcinar os restos de ossos de animais que você come no dia a dia e fazer uma bela farinha de osso. Ou ainda, você pode usar cascas de alimentos, borras de café, deixar fermentar e produzir seu próprio adubo líquido. Você pode ainda usar as cinzas de madeira como adubo, cascas de ovo como fonte de cálcio, que ajuda como adubo, mas também a não deixa o solo tão ácido. 
    Aprendi que não se pode ter muito apego às plantas, pois algumas são sazonais e vão dar seus frutos e logo depois se vão, como os tomates, que podem dar até umas 2 ou 3 colheitas no máximo ou algumas espécies de framboesas. Ou, ainda, perdas podem ocorrer pelo excesso de chuva e,logo, umidade, por ventanias, por excesso de calor (quando ficam esturricadas) ou, a hipótese que me deixa mais chateada, quando alguma praga devasta a planta, como é o caso de gafanhotos e formigas, que praticamente depenam a planta. 
    Aprendi que cansa, também, e dá trabalho, pois você tem que estar sempre cuidando das ervas daninhas para não crescerem em volta, você tem que estar atenta às doenças e pragas que a planta pode ter, você tem que adubar periodicamente, regar, às vezes, também, podar e não deixar os frutos, legumes, verduras passarem do ponto. 
     No entanto, apesar do trabalho a gente percebe a diferença do alimento orgânico quando a gente come um tomate colhido do quintal, uma cenoura, um morango, um pêssego, um pimentão, que têm um sabor completamente diferente do que a gente compra em mercado. Depois de experimentar certos alimentos, o do mercado parece insosso, todos parecem sem um doce e saber acentuado que vc tem nos alimentos orgânicos e frescos. 
    A minha mãe tem alguns pés de banabeira que já possuem alguns anos e sempre estão produzindo bananas sem nunca termos adubado, mas apenas com as jacas que caem da jaqueira ao lado e as folhas que caem da jaqueira, ela fica com o solo ao redor dela muito nutritivo e é assim que acontece na natureza normalmente. E, essa bananeira que produz banana d´água possui uma banana divina e quando um cacho está pronto pra ser retirado a gente experimenta a melhor banana que já comemos na vida e é tanta banana que dá para oferecer para várias pessoas e ainda sobra muita para fazer diversas receitas. Ano passado mesmo fizemos um recheio de banana e congelamos para usar em panquecas, pois foi uma forma de não estragar as maravilhosas bananas. 
    Eu aprendi muita coisa errando e, às vezes, errando ainda mais, pra enfim acertar ou não acertar nunca. Por exemplo, ainda estou na minha saga com as formigas. Mas o mais importante que aprendi é dar valor a quem produz orgânicos e quem produz e coloca os alimentos em nossa mesa e, o mais importante, é que quanto mais perto de quem produz o seu alimento, mais fresco ele é. Não existe maneira de transporta alimentos a grandes distâncias e por dias sem que se usem produtos que vão manter o alimento ainda fresco, por isso valorize as feiras locais de produtores locais. Frequentem os lugares onde as pessoas produzem geléias, pães, pastinhas, pois você estará incentivando o trabalho de pessoas com pequenos negócios e incentivando a outras pessoas a também a criar seus negócios. E, tudo que for mais natural, menos processado, mais caseira, sem conservantes será minimamente mais saudável do que alguns dos produtos que adquirimos no mercado. Fora que em vez de encher o rabo de dinheiro de grandes corporações, estaremos ajudando quem precisa mais, que o empresário individual, o agricultor familiar, etc.... 
    Enfim....depois de um bom tempo me aventurando por esse mundo, descobri que vou abandonar os projetos grandiosos com minhas plantações orgânicos, pois, infelizmente, não tenho tanto tempo pra me dividir em tantas tarefas que a quantidade de plantas que eu tenho aqui exigem e que demandaria pagar alguma pessoa para ajudar nos cuidados das minhas plantas, e que no momento não posso pagar. Mas tenho certeza que no final eu aprendi muito e sem sombra de dúvida no futuro voltarei a comprar alimentos orgânicos e, se possível, dos do MST, que possuem um preço, geralmente, mais acessível.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Therma Romae e a arte das termas romanas









Therma Romae é um mangá ficcional, mas que possui muitos detalhes históricos interessantes, não só dos antigos banhos públicos romanos, como também sobre Roma e alguns de seus personagens históricos, como o Imperador Adriano. É um mangá (quadrinho japonês) para adultos, não porque trate de sexo, drogas ou tenha conteúdo violento, mas porque para os romanos a nudez e a sexualidade não era um tabu e muitas das esculturas e cultos romanos para a nossa civilização ocidental atual poderiam ser considerados, no entanto, obscenos.

A história em si é sobre um modesto arquiteto chamado Lucius Modestus, que herdou a profissão da família.  Lucius trabalha projetando termas e é casado, no entanto, logo no começo da história, perde o emprego por seus projetos serem muito antiquados para a época. Um de seus melhores amigos também lhe auxilia algumas vezes, já que trabalha em uma área correlata, como escultor. A parte em que a história fica hilária, no entanto, é quando Lucius entra em um banho público para relaxar e é sugado por um buraco no fundo da terma, indo parar de forma inexplicável no Japão atual. Apesar, dessa parte do mangá lembrar um pouco dos filmes surrealistas de Bruñel e Dalí, pois não há nenhuma explicação lógica para o ocorrido, em nenhum momento o leitor que já está acostumado a ler quadrinhos ou livros de fantasia se sentirá incomodado, pois a proposta do mangá não é a de ser uma obra não-ficcional e histórica e sim uma comédia adulta, que usa elementos históricos.

Mia Yamazaki, a autora, consegue mostrar com maestria o deslumbramento do personagem da Roma antiga no Japão atual e usa as visitas de Lucius ao Japão para mostrar as diferenças e semelhanças culturais entre 2 mundos diversos. Tantos os japoneses, quanto os antigos romanos dão grande importância às termas, para ambos esse era uma espaço de relaxamento, lazer e até mesmo socialização. Várias pequenas fotos da autora ilustram como são as termas romanas e as japonesas, e dá exemplos também de outros locais do mundo, como os banhos turcos.

                                          Terma Romana na cidade de Bath, Inglaterra

A grande maravilha da história é que quando você começa a ler o mangá, percebe que boa parte dos acontecimentos, cenários e personagens são reais e históricos, pois a mangaka (nome que é dado ao autor de quadrinhos japoneses) é casada com um italiano na vida real (e chegou a viver 11 anos por lá) e já chegou a ser repórter de termas naturais, demonstrando bastante conhecimento e paixão pelo assunto. A medida que a história vai sendo contada, ela nos proporciona dados sobre como era a vida em Roma e até sobre os instrumentos usados pelos escravos romanos para depilarem ou esfoliarem seus senhores nas termas romanas.

  Estrígil- instrumento usado pelos romanos para tirar a sujeira e impurezas do corpo.

Geralmente entre um capítulo e o outro a autora costuma também fazer uma pausa no mangá para fazer relatos de suas visitas em lugares ligados a banhos públicos ou privados, termas, instâncias termais e spas que foram dados e experiências que ela coletou para tornar a história mais plausível e as experiências mais realistas.

O mangá chegou a fazer bastante sucesso no mundo, principalmente no Japão, onde chegou a vender mais de 8 milhões de cópias. No Japão ganhou, inclusive alguns prêmios dentro do universo dos mangás como o Taishô 2014 e o 14º Prêmio Tezuka (fundado pelo famoso mangaka Osamu Tezuka). E aqui no Brasil ele passou a ser vendido pela editora JBC em 2013 e teve 6 volumes, que ainda podem ser encontrados em algumas livrarias especializadas no universo geek.

Mas para quem não quer se aventurar pelo universo dos quadrinhos japoneses, há também uma segunda opção, que é assistir o live action I e II, que tiveram sua estréia respectivamente em 2012 e 2014. Abaixo você poderá assistir o trailer dos filmes:



        Therma Romae I (live action 2012)


        Therma Romae II (live action 2014)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Greta Garbo e feminismo no século passado



Greta Lovisa Gustafsson, mais conhecida como Greta Garbo veio para os EUA em 1925, para trabalhar em hollywood a convite de Louis B.Mayer, o poderoso magnata do estúdio MGM. Junto com ela veio seu amigo finlandês Mauritz Stiller, que foi o primeiro a dirigir um filme estrelado por Greta e também o principal motivo da atriz ter sido convidada por Mayer para fazer filmes na América. Mas, inicialmente a jovem sueca (Greta estava então com 19 anos) não se encaixava nos padrões estéticos de hollywood e teve que ser “remodelada” para se adequar a eles. Garbo perdeu peso, fez reparos nos dentes e alisou o cabelo para finalmente poder interpretar o seu primeiro papel em um filme americano em 1926 ,chamado “Os proscritos”.
De todas as coisas que li sobre a Greta Garbo, boas e ruins, me fez construir em minha mente não um personagem, mas um ser humano, com erros e acertos, sem maquineísmos, uma pessoa como qualquer outra. De personalidade tímida e retraída, que odiava os holofotes, e que ao mesmo tempo  teve contato com personalidades fortes e  ilustres como Wilson Churchill. Foi admirada e procurada por outras figuras famosas como Jacqueline Kennedy,
Como toda mente humana, sua personalidade se contradizia, pois por mais que odiasse as multidões e os paparazzis, escolheu como profissão ser atriz, e fazer parte de um dos maiores estúdios de filme da época. Endossou fofocas de todos os tipos, com homens e mulheres, e ao mesmo tempo que afastava as pessoas, parecia que seu mistério produzia um magnetismo nos mesmos ,que se viam atraídos por um olhar melancólico e sincero recato, que talvez nunca tenha sido a intenção de Garbo.
                Bem longe de fazer um relato psicológico da grande atriz Greta Garbo, minha intenção é falar no que esta personalidade teve de revolucionária na década de 20 até a sua morte, o que trouxe para nós nos dias de hoje que nos causa tanta admiração, seja pela sua coragem em viver a vida que desejava, seja por tomar atitudes que na época eram vistas com preconceito.
                Podemos dizer que Greta Garbo causou muita polêmica, principalmente no período que ainda estava em evidência na mídia, tanto pelas suas supostas amizades e relacionamentos com homossexuais da época(como Mercedes de Acosta, da qual trocou cartas durante muitos anos), tanto quanto pelos seus supostos casos . Apesar de nunca ter dado uma entrevista em que assumisse nada (durante sua vida toda concedeu apenas 14 entrevistas) e de deixar guardado a sete chaves sua vida pessoal,  muitas especulações foram feitas sobre sua sexualidade. Acreditava-se que fosse bissexual e que em diferentes períodos da vida tenha se relacionado ora com homes, ora com mulheres.
Algumas de suas ações poderiam projetá-la também como uam figura importante para o feminismo. Já na primeira metade do século XX  questionou as noções tradicionais de gênero, ao fazer uso de calças, que na época era considerado pouco feminino. De fato a calça só passou a ser usada pelas mulheres a partir da 1º Guerra Mundial, pela necessidade das mulheres de trabalharem, já que seus maridos e pais se encontravam na guerra. Essa peça de roupa era vista muito mais como uma necessidade do tempo do que realmente como uma roupa feminina. No entanto, com a 2º Guerra Mundial  e também com o uso constante por estrelas do cinema como Marlene Dietrich e Katharine Hepburn, e pela estilista Coco Channel, as calças femininas passaram a ser largamente difundidas e mais modelos criados.
Outra prova de seu questionamento dos papéis que eram impostos à mulher na sociedade de então, foi o desejo constante por fazer papéis masculinos no cinema, como o personagem Dorian Gray, magistralmente criado por Oscar Wilde e o clássico Hamlet de Shakespeare. Mas infelizmente nunca conseguiu com que a MGM aceitasse produzir um filme no qual Greta fosse descontruir toda a imagem que havia sido habilmente construída para ela: a de moça lânguida, feminina, um ícone daquilo que deveria ser mulher até meados do século passado.
Mais revolucionário, no entanto, que todas as decisões tomadas por Garbo, foi sua omissão. Ao se permitir nunca entrar em um casamento, em um período que as mulheres ainda sofriam muita opressão para serem verdadeiras mantenedoras do lar e por desempenharem seus papéis como “bibelôs da casa”, Greta quebra um “paradigma” sexista de seu tempo. Mesmo tendo se relacionado com diversas pessoas ao longo da vida, Garbo nunca se casou, sendo que propostas não faltaram (como a do milionário grego Aristóteles Onassis). Sabendo que sua timidez, solidão, melancolia e possíveis momentos de depressão não se conjugariam bem com o que poderia se esperar dela em um casamento, preferiu que seus relacionamentos interpessoais nunca chegassem a ser um compromisso timbrado em papel.
Em nenhum momento pretendo dizer, no entanto, que a coragem dessa mulher era do tipo pensado, pelo contrário, já que pela sua biografia percebemos que viveu reclusa muito tempo em seu apartamento em Nova York com medo de ser reconhecida na rua e virar notícia de tablóide. Mas como havia dito, é uma personalidade contraditória, e ao mesmo tempo que havia aspectos de covardia em si, havia coragem em outros. Acredita-se que tenha inclusive feito 2 abortos quando ainda estava nos estúdios MGM e pagos por este, em um período em que os métodos contraceptivos ainda eram muito primitivos e ainda não existia a pílula (criada na década de 60). Podemos imaginar como deveria ser difícil para uma mulher se submeter a tal procedimento em um período em que o aborto ainda era ilegal nos EUA (só foi legalizado em 1973) e que não existia todo o aparato atual da medicina para tornar o procedimento rápido e seguro.
 Finalizo esse texto concluindo que o feminismo é muito mais do que uma ideia que se contrapõe ao patriarcalismo, ao sexismo e a misoginia. O feminismo ele surge de pessoas como Greta Garbo, que através de suas escolhas de vida, contrariaram completamente os papéis que a sociedade tentou lhes atribuir. Ele surge assim como uma forma de ver e viver a vida que não se prende a padrões predeterminados do que é ser homem ou do que é ser mulher. Ele tem em vista que cada um deve e pode desempenhar o papel que quiser em sua própria vida. E nesse sentido Greta Lovisa Gustafsson soube fazer isso muito bem.

P.S.: Agora esse artigo estará disponível na revista Obvious: http://obviousmag.org/escritos_desafinados/2015/02/greta-garbo-e-o-feminismo-no-seculo-xx.html
E quem quiser poderá acompanhar outros artigos meus através da Obvious: http://obviousmag.org/escritos_desafinados/autor/

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Solidão X Socialização


    Uma das ideias que mais marcou a minha vida até hoje era que a de que o lar era o lugar onde está a(s) pessoa(s) que você ama. Então, sempre tive comigo que não importa onde eu estivesse, o mais importante seria quem estaria comigo percorrendo esse caminho. Não foram poucas vezes, no entanto na minha vida que tive vontade de fugir de tudo, de fugir de mim mesma e de todos e ir para um lugar que eu não conhecesse ninguém, onde fosse uma completa estranha. Mas, junto com esse pensamento, também me vinha na cabeça as pessoas que eu deixaria para trás. E outra pensamento que surgia é que eu nunca poderia fugir de mim mesma, não importando para onde eu fosse, a única pessoa que estaria ali presente a vida toda seria eu mesma. Já as outras pessoas, algumas nós escolhemos estar perto e outras foram obra do destino/acaso, como as pessoas da nossa família. O que importa é que não conseguimos desfrutar o mundo e ser felizes sem o outro. É através da alteridade que nos compreendemos, que fazemos sentido e o mundo também. É através do outro que nos percebemos com nossas falhas e acertos, com nossos defeitos e qualidades. Só pelo contato, a convivência com o próximo é que conseguimos compartilhar as nossas experiências, sentimentos, visão de mundo, superstições e conhecimento. Até o conhecimento mesmo por si só não faz sentido, se não é compartilhado com alguém, se não é dividido e saboreado com o outro. Sem outro olhar, estamos fadados a estreiteza de visão, a enxergar o mundo em uma cor só, a viver dentro da caverna de Platão. Só, apenas como um indivíduo, acrescentamos algo a sociedade, mas esta está sempre também nos modificando, pois a corrente das massas, vai inevitavelmente carregando os indivíduos nela.
    Como indivíduos temos ideias geniais, impulsionadas pela massa pensante e disforme da sociedade. Estamos sempre criando em um movimento de simbiose que vai do indivíduo pra sociedade e vice-versa. Não creio que existam ingênuos que acreditem que possam viver sem outros indivíduos, sem outros serem humanos que lhes tragam algum tipo de completude ou que lhes possa produzir um sentimento de alegria genuíno, causado pelo simples fato que nem tudo podemos fazer sozinhos, e que sempre vamos precisar do outro. Talvez daí tenha surgido o sentimento de humildade em nós, como nos apercebemos eternamente dependentes de outros seres vivos para continuar vivendo, da caridade de quem nos detesta, como diria Cazuza. Não só quando crianças ou velhos, mas ao longo de nossas vidas frágeis, necessitamos do outro, não como uma muleta, mas como um verdadeiro indivíduo co-depende de outro. Não somos nada sem o outro e outro não é nada sem nós, e assim vivemos todos na interdependência do próximo.
    Mas onde eu quero chegar com toda essa volta, é que por mais que em diversos momentos da minha vida a solidão me acometa e eu acabe sentindo alegria por ela me visitar, eu sei que no fundo não somos indivíduos completos sem os outros e não crescemos e nos tornamos pessoas vividas e com diversas experiências de vida sem esse contato. Somos seres sociais, independente do quão solitários possamos ser ou nos sentir em alguns momentos. E esses momentos de solidão são verdadeiros tesouros para algumas vezes refletirmos quem somos e quem queremos ser, assim como também para simplesmente curtir a nossa própria presença.

 Estou lendo o livro da Mónica Ojeda, chamado Madíbula. É um livro incrível no sentido de que, mesmo eu já tendo muitas coisas que me arrepi...